Mulher de Sonho

Devemos sonhar todas as noites. É o mais que provável. No entanto dessas imagens velozes que se embargam no tecido onírico das nossas mentes, são poucas ou quase nenhumas as que sobrevivem ao amanhecer, ao despertar dos sentidos e ao revelar das pálpebras quando estas se erguem e estamos imersos no presente. Ontem tive um sonho vívido, quase real, parecia ele palpável e verdadeiro.
Estava num espaço que se assemelhava a um misto de uma qualquer loja comercial com um espaço de diversão nocturna... Na multidão de corpos, conversas, toques e sorrisos eis que ELA surgia.
Parecia que nada mais existia... trocámos olhares, olhos nos olhos... recordo-te com detalhados pormenores. Ela estava acompanhada, um vulto decerto, uma representação inconsciente de que seus afectos a mim não me pertenciam. Aquele olhar profundo cor de mel, o rosto róseo com breves salpicos de sardas... Lembro-me que o vulto a puxou para irem embora. Persegui-os até ao limiar da porta de saída. Ela ficou para trás por um qualquer motivo enquanto ele seguia... sem nexo ou lógica, ou não fosse esta uma narrativa incongruente e de fraca compreensão como qualquer jogo de imagens de sonho.
Parece que a vejo aqui mesmo enquanto escrevo estas linhas, de tão marcado que foi aquela imagem. Olhei-a nos olhos e sem medos, receios ou complexo perguntei-lhe se não tivesse alguém se poder-me-ia amar. Com um ternurento sorriso evitando o olhar, de modo doce e irónico disse que talvez...

Curioso como aquela mulher parece-me gravada na memória... Ainda que não insista em recordá-la ou pensar nela, eis que quase sempre ela me regressa... Enchendo-me de paz e carinho. Faz-me bem dela me lembrar...

Os desígnios do desejo ou seja esta uma paixão ao qual volto sem muito pensar ou raciocinar. Não sinto o desgostoso pesar da ausência, nem a tristeza de não seres minha, nem muito ou nada penso naquilo que vives...

Por este prisma talvez seja egoista e muito solitário este meu afecto. Desprotegido e despovoado de quaisquer vontades ou esperanças. A mim me pertence e nada peço...

Gostava de ser teu amigo, de contigo conversar, de partilhar a voz ou textos... de te dizer quanto te desejo.

Apesar de irrelevante e sem qualquer interesse para ti... gostava que soubesses o quanto te queria conhecer, contigo partilhar momentos e intimidades...

Em boa verdade aquela noite para ti nada significou... em boa verdade para além do prazer físico, de te sentir as carnes em mim, de te ouvir em sussurros e gemidos... seja sexo, amor, uma foda que seja. Por momentos foste minha, a mulher que eu mais desejei... e isso, isso ninguém me tira.

Não acredito em amores românticos, em grandes sofrimentos por ninguém, em desmedidas dedicações... acredito na urgência do desejo, nos corpos, na vontade de sentir a língua dançar na boca e nos seios de uma mulher, de sentir a ponta dos dedos a nadar por entre os seus cabelos. Em conhecer a sua essência, gostos, vontades, personalidades, cheiros...

Talvez este seja o derradeiro romantismo, querer sem nada esperar. sem explicação... porque sim e porque se quer. Porque faz bem. Saber que existe alguém que representa aquilo que se mais quer. Seja real ou fantasia...

Porque me faz exacerbar aquilo que de melhor julgo ter e que de melhor quero ter... a vontade de criar e de estar sempre afogado em mundos de ideias e pensamentos.



La Femme Désir #2

...And even though such time has passed, seeing her last night... at a mere and quick glance over a crowd on a busy street, as she turned and her hair fluttered... she had this glow... as if time has stopped itself... and she made me shiver, just like the last time I've seen her.

La Femme Désir

Curioso rever a divina sereia algures numa rua da cidade, ainda que por breves piscares de um rápido momento... mais de um ano depois de lhe sentir as carnes e saborear-lhe os lábios dos quais o fantástico sabor parece estar gravado em mim...

O Reflexo

São quatro da manhã. Oiço na ruas os ronronos industriais da máquina trituradora e engolidora do veiculo dos homens do lixo a processar os nossos dejectos. Aqui estou no meu quatro, sozinho no escuro... Acompanha-me uma luzinha muito suave do monitor de um computador portátil que me ofusca as vistas com seu brilhante cintilo. A luz azulada de um disco externo que pisca em intermitências inconstantes projectando na janela o meu reflexo de perfil. Lembro-me de o ter olhado de soslaio, quando repousava as vistas. Parece que o meu reflexo se modifica em transfigurações... ali está intacto e quieto, parece que me aguarda... afinal sou eu o lado real e o controlador... mas depois fitando-me pelo canto da íris, o reflexo parece aumentar suas formas. Como se fosse uma mancha de tinta numa folha de papel branco... A luz azulada ilumina-o num ângulo de baixo para cima... o pescoço está visivel, mas depois o rosto é uma paleta disforme de uma sombra com misteriosos contornos que formam a minha face... como se a própria noite salpicasse de tintas uma caricatura abstracta de mim mesmo. Observo o meu reflexo, iluminado pela luz não natural de um objecto orgânico. Assusta-me de certo modo ver esta forma, sou eu mas ao mesmo tempo já não sou, pois se me reflecte já não serei eu, em boa verdade... Vejo a mancha a alastrar e a ocupar mais espaço no vidro da janela de meu quarto... deve ser um sinal de que está a crescer. Mas porquê? E para onde? Às vezes parece que se mexe antes que eu mesmo me mexa. Outras apenas ali está com sua função natural de me projectar ao sentir o abraço da luz. Enquanto a olho, também me olha de volta... pois se é o meu reflexo é sua obrigatoriedade me fitar de volta enquanto a confronto. Mas não pára de crescer... apoderando-se gradualmente de mais e mais centímetros da minha janela. Enquanto escrevo, algo de inesperado acontece... para o qual não estou precavido nem sequer compreendo tamanho fenómeno... Ao premir as teclas do portátil, as mesmas afundam-se pausadamente, desaparecendo numa espécie de caixa negra que se vai formando e aumentando à medida que as teclas se evaporam. Letra a letra... A minha mão entra neste buraco negro, é fundo... Insiro e retiro alguns dedos... depois mergulho a mão... Elevo o portátil acima da mesa, tentando discernir este misterioso buraco. Tudo normal. A mesma mesa de pinho... Não há qualquer abertura na extremidade do portátil. Investigo esta caixa negra de profundidade assinalável que surgiu no painel do teclado. Num acto irreflectido e imediato, submerjo o rosto neste vácuo que substitui o teclado... Um profundo buraco negro sem fim. O medo cobre-me as têmporas, servindo-se depois de um fino manto que me cobre as carnes por inteiro. Apresso-me a tirar o rosto deste misterioso portal, ou que raios será... Olho para a minha esquerda, onde está a janela do quarto. Errado. Não está lá janela alguma, nem a persiana corrida, muito menos a mancha do meu reflexo. Ao olhar para a esquerda vejo a rua do meu apartamento. Mas do lado de fora... Nem sequer é através do vidro. Uma brisa calma e suave como um murmúrio assobia-me por entre o tímpano. Mas onde estou? Não estou no meu quarto, mas também não estou para lá do meu apartamento. Ao olhar para a direita, vejo tudo turvo, como um picotado de diminutos quadradinhos que formam imagens... Estou dentro da janela... e os quadradinhos pertencem à persiana... O reflexo que anteriormente não era mais que uma projecção ampliada por uma ténue luz, apoderou-se do lado real e ali está fitando-me sem pestanejar... do outro lado. Mantém seu formato meio que abstracto, o corpo uma mera silhueta de sombreados dispersos. E aqui me sinto em expansão... tanto física, (pois o repuxar de carnes e músculos alarga-me para um formato de complexas descrições) como metafísica, pois estou dentro e em simultâneo fora de mim. A sombra apoderou-se do real... Nem sei que raio vai fazer. Talvez viver o meu quotidiano, as minhas vivências, aqueles que me rodeiam, meus sonhos e anseios... E eu? Talvez desapareça numa névoa de claridade quando a luz se acender ou o Sol abraçar a janela pela manhã.

O Enxame

Quando findou o Mundial de Futebol de 2010, o Mundo nunca mais foi o mesmo. Tudo começou enquanto celebração de vitórias e conquistas, convívio entre povos. Era uma saudável compulsão, um pulsar incessante, uma nefasta vontade e necessidade de soprar a malévola corneta. Depressa percorreu o planeta, como uma pestilenta doença que infectou as populações. Por todo o lado se começou a ouvir o penetrante zumbido, provocando irritação, desregrada a pungente necessidade em soprar. Não era concebível ou sequer possível cessar… aos poucos o próprio organismo exigia a audição dos sons que das mesmas expeliam em urros sucedâneos. Invadiu cidades, países e continentes. No Verão de 2011 estimava-se que 96% da população mundial estivesse infecta com a necessidade de sopro. Não tardou o caos e a violência… de início danos permanentes e irreparáveis de audição. Depois com a crescente irritabilidade que provocava nos poucos que insistiam em não padecer desse mal, chegou a demência; suicídios, homicídios… Outros inclusivamente perante o ensurdecedor zumbido que se ouvia por todo o lado, soçobraram e paulatinamente foram absorvidos pelo fervor sonoro, sentindo-se inclusivamente impelidos a tocar e em plenos pulmões soprar furiosamente. Um estudo mundial de um censo à escala global estimava que por volta de meados de 2016, em média um agregado familiar de quatro elementos dispunha de dez vuvuzelas por habitação. Estavam por todo o lado… e espalhava-se com uma violenta voracidade, a todos destruindo e a todos inebriando com o monótono zurzir repetitivo que, ou causava loucura, ou infectava como uma inconcebível e misteriosa obrigatoriedade em grunhir do mesmo estes zumbidos…
Aos 4% de cidadãos do Mundo a quem esta temível virose não afectou, restava-lhes fugir para zonas periféricas onde imperasse alguma, ainda que diminuta noção de paz e silêncio. No entanto esta doença indiciava uma reviravolta, quiçá de maior vilania até que a urgente e enigmática perversão tenebrosa de cariz auditivo. Com o tempo, aqueles aos quais seus tímpanos não explodiam perante as repetições que flutuavam por todo o lado, começavam a padecer de terrores de igual desespero. O organismo estava habituado aos sons contínuos, e, perante o harmonioso silêncio que a distância das cidades lhes provocava, seus cérebros inchavam para lá de tamanhos razoáveis ou humanamente suportáveis e concebíveis, e ao não conseguir aguentar, acabavam por rebentar. Os anos passavam e os humanos findavam… sim porque era disso que se tratava. Um rápido dizimar da espécie. Algo mais nascia neste Mundo… de início uma espécie de híbrido entre humano e viciados… como drogados à escala planetária. Se ao menos fosse música, mas não… de todo. Por volta de 2019 restavam pouco mais de 200 seres humanos, humanos legítimos, é bom frisar… viviam refugiados em colinas e montanhas, outros em praias, onde os sons genuínos da Natureza ainda estivessem sob controlo… de alguma forma. Fugiam das vuvuzelas; temiam ficar viciados e também eles sentissem a vontade em soprar e arremessar da alma e com a força da garganta os fortes gemidos graves.
Nas cidades, os híbridos de humanos e algo mais que até é difícil qualificar e descrever prosseguiam os rituais. Já não havia diálogo entre ninguém… limitavam-se a bafejar no objecto incessantemente. Raramente paravam sequer de tocar, e das raras vezes que o faziam, havia sempre alguém ao redor que prosseguisse os sonoros. Não fosse existir um minuto sequer de silêncio. Nem se sabe que temíveis consequências daí adviriam. Algures em 2024 um reputado cientista do Burkina Faso concebeu uma espécie de linguagem experimental através da vuvuzela, o que, em boa verdade até eliminava de certo modo o carácter contínuo e repetitivo do som, formando sons repentinos de sopros rápidos que tentavam formar uma aproximação fonética a alguma espécie de vocabulário que suprimisse por inteiro a comunicação vocal. Quando dormiam havia sempre alguém que fizesse soar as cornetas… As noites eram asseguradas por oficiais dos Governos, ou cidadãos anónimos, que se revezavam entre eles para que os zumbidos nunca parassem sob pretexto algum.
Estavam de tal modo compelidos nestas viciosas exigências, que paulatinamente deixaram sequer de se alimentar pelos métodos comuns de ingestão pela boca. A mesma era agora fonte de outras actividades. Passaram a fazer implantes, e tubos ligados directamente na barriga que asseguravam a sua continuidade.
Sexo era supervisionado por terceiros que tocavam vuvuzela durante a cópula, ou, caso o casal em questão sentisse desconforto perante a situação de cumplicidade íntima, um dos intervenientes no acto asseguraria que os urros estariam presentes, intercalando por vezes com o outro integrante nas actividades de cariz erótico. Destes híbridos comatosos viciados nasciam crianças com estranhas mutações. Alguns nasciam com tamanho de comuns bebés, mas com formas diferenciadas… corpos em metades entre humanos e abelhas; vários com corpos de abelha por inteiro. Aos primeiros dias zumbiam naturalmente por vontade própria, mas depois emudeciam por inteiro ao completarem um mês de existência. A esta nova estirpe eram cozidas vuvuzelas nas bocas, para que o choro os fizesse exalar os sons da mesma. E assim os humanos eram cada vez mais uma espécie no limiar da extinção… a estes novos seres era dada a designação de Vuvumanos. E assim prosseguiam os zumbidos em milhares de vuvuzelas por todos os lados vinte e quatro sobre vinte quatro horas.
Uma vez por outra, alguns ousavam tentar parar. Faziam força e abandonavam… era pior que uma droga, que elevadas doses de álcool, que o prazer do tabaco… aliás esses vícios há muito que não existiam. Este vício, digamos assim, nem sequer se ancorava em noções de prazer e agradabilidade, talvez no início quando a epidemia começou em África durante a celebração futebolista e se espalhou como o rastilho de um fósforo a acariciar as labaredas em língua de fogos. Agora era uma obrigatoriedade. Quando tentavam cessar, sentiam que lhes faltava a respiração, o coração em acelerados trombos, a boca irrequieta sem saliva, a garganta nervosa, o cérebro que zurzia desesperado perante a quietude.
Para os poucos que não concebiam suportar este irritante som, os poucos que não pereceram, enlouqueceram ou cederam… refugiados bem longe, imunes ao silêncio, adoradores da paz, avessos às perturbações orgânicas que os estímulos do agente agressor lhes pudesse causar, decidiram unir-se e deixar de esconder e fugir.
Das praias, colinas e montanhas e demais espaços isolados no limiar da adorada acalmia, surgiam exércitos de homens e mulheres, em nome de valores de decência sonora começavam a se insurgir. Durante anos prepararam um ardiloso plano de acção com o expresso intuito de restabelecer a Humanidade e destruir a corneta demoníaca. Um exército de meras centenas, mas com sua coragem teriam a força de milhares.
Em Agosto de 2030, o exército de humanos imunes ao silêncio, composto por pouco mais de uma centena, invadiu uma cidade… munidos de metralhadoras, pistolas, espadas e demais armamento, dispararam e assassinaram à descrição a todos que passavam. Os Vuvumanos, coitados, indefesos apenas podiam ripostar soprando nas vuvuzelas. Muitos dos humanos pereceram quando seus crânios implodiram face à insuportabilidade de escutar o som grave. Em resposta os Vuvumanos eram alvejados na cabeça, num tiroteio certeiro que fazia com que mel jorrasse de suas cabeças e escorresse igualmente dos seus cadavéricos seres executados.
A contenda prosseguiu por largos meses até tomaram esta cidade. Certo é que o Mundo estava infecto, mas nascia aqui o dealbar para a importante batalha.
Enxames de crianças e homens e mulheres e velhos vuvumanos foram capturados e queimados nas praças; vuvuzelas pisadas e quebradas…
Em Fevereiro de 2031, os céus azulados foram inundados por copiosas chuvadas que percorreram a Europa. Coléricos ribombos varreram à sua passagem… no entanto os violentos sons das chuvas traziam música… sim, inexplicavelmente caía música dos sons das águas, ritmada, melódica, furiosa e tenebrosa gritava bem alto enquanto embatia nos solos. A chuva trazia melodiosas músicas que suplantavam os urros e grunhidos graves dos zumbidos das cornetas… ventanias imponentes sibilavam estes sons percorrendo espaços para lá de onde a vista poderia alcançar.
E assim esta malévola estirpe de híbridos do Homem, nascida de um aparente e absurdo fascínio em soprar continuamente numa corneta, formando sons monocórdicos causadores de nervosismo e irritação, e igualmente de misterioso vício foi lentamente destruída da face da Terra pela música que através da sonoridade abafou os grunhidos…
No fim desta batalha restaram pouco mais de oito humanos imunes ao silêncio, genuínos seres da espécie. Alimentavam-se agora do mel dos corpos dos mutantes derrotados. Desses oito, sete eram homens e só havia uma mulher.
À vez, os sete copulavam com a fêmea com o firme intuito de repovoar o planeta. Quando os mesmos a deixavam sozinha para procurar por corpos e mel para que sobrevivessem, a mulher refugiava-se num canto da cidade, bem longe das suas vistas e de seus ouvidos, onde escondida entregava-se ao seu derradeiro e secreto prazer… guardara uma das raras vuvuzelas que não foram destruídas.
Soprava, como a mulher soprava… permitindo-se saciar o enigmático vício.